Giovana

Queridas/os Caminhantes, quero agradecer a vocês todas/os e ao Caminho da Luz tudo de bom que me proporcionaram na semana em que estivemos juntas/os.

Foi mesmo uma semana fantástica. A saída, daquela cachoeira maravilhosa, guardada por aquele prédio maravilhoso da usina, já anunciava que teríamos um belo percurso pela frente. E belo não só pelas suas belezas naturais, mas também por fazer brotar nas pessoas o que elas têm de melhor. Considero que as relações entre as pessoas, entre nós e com as comunidades por onde passamos, foram também um grande presente do Caminho.

Aquela recepção de Catuné eu nunca vou esquecer. Café, mandioca frita, bolo caseiro; tudo feito de boa vontade pela comunidade, para nos saudar. E, em Espera Feliz, até o quarto onde o Daniel dormiu (ou era o Leonardo?) reservaram pra gente (rs!).

E não tinha contratempo que resistisse ao Caminho. Lembro que, no segundo dia, eu passei mal na estrada e insisti em andar sozinha no trecho em que eu tava pior; cheguei a achar que era meu último dia de Caminho e fiquei muito triste por isso. O engraçado é que, na hora que eu tava me sentindo totalmente destruída, escutei um menino gritar quase em desespero: "dá licença da estrada!". Eu olhei pra trás, tinha um monte de vaca chifruda correndo na minha direção; corri pra debaixo da cerca, a mochila me fez ficar agarrada; eu não ia nem pra trás nem pra frente. As vacas vinham chegando, e eu perguntei pro menino se elas eram bravas; ele disse que sim, que elas pegavam; eu, então, gritei pra ele não deixar que elas chegassem perto de mim, pois eu não iria me desgarrar tão fácil dali. Ele entendeu meu apuro e adiantou seu cavalo, se colocando entre mim e as vacas, bradando pra elas, que logo me ignoraram e seguiram a estrada. Isso serviu pra me relaxar. Passado o susto, eu ri demais da minha carcaça impotente agarrada na cerca.

Com certeza, se me avisassem que a caminhada era, em boa parte, um "rali a pé", eu descartaria de cara, mas hoje, depois de ver que é também gostoso um "rali a pé", acho que não vou mais nem olhar previsão de tempo quando for caminhar; é só colocar a capa de chuva na mochila.

No final de cada jornada, a sensação que eu tinha era que meus pés haviam sido desossados, mas era interessante notar como que as palavras de encorajamento que ouvi de muitas/os de vocês, aliadas a uma noite de sono, lançavam-me sempre mais um dia no Caminho.

Hoje eu sou mais feliz, por saber que existe o Caminho da Luz a minha espera, a hora que eu quiser visitá-lo. Ainda que eu não consiga, em breve, refazê-lo na íntegra, tenho a possibilidade de ir refazendo-o "aos pedaços", em finais de semana.

E quanta coisa bonita a gente vai ouvindo das/os caminhantes e das pessoas que nos recebem. Lembro de ouvir passagens bonitas sobre Francisco de Assis, quando vinha descendo o Pico da Bandeira. Lembro, também, de alguém comentar que o tempo, no Caminho, "era totalmente dispensável". E era mesmo; o tempo parecia não existir ali.

Foi mesmo uma caminhada inesquecível em seus detalhes. E isso graças a vocês e, claro, de modo especial, a todas/os que se ocuparam de garantir a infra-estrutura pra nós, como disse, você, Albino, às pessoas que são instrumentos para a realização de nossa caminhada, e também para a manutenção deste grupo. Foi, pra mim, uma celebração coletiva, uma veneração coletiva da natureza, uma vivência de fraternidade. Uma impressão que me ficou é que, no nosso percurso, não tinha como praticar meditação, pois parecia impossível a gente se abstrair da materialidade do Caminho, ou melhor, parecia impossível separar do Caminho a sua materialidade ou a sua transcendência.

Não, eu não vi, no Caminho da Luz, fadas, bruxas, duendes, feiticeiras, santas, santos, almas desencarnadas e a onça pintada dos meus sonhos. Não vi, mas ando suspeitando que é no Caminho que boa parte dessas entidades reside serenamente.

Vou ficando por aqui; já escrevi demais (isso porque vocês ainda não viram quando alguém me pergunta se eu viajei nas férias; eu começo a falar do Caminho e não paro). E escrevo como uma forma de agradecimento e de reviver a caminhada.

Aproveito, ainda, para pedir que, se possível, postem uma ou outra foto no grupo, em especial fotos do trecho Parada General-Ernestina e umas que tiramos no galpão do IBC, da mulherada em festa. É que eu perdi o meu filme do Caminho. Só tenho a foto da chegada e as do Pico. Perdi mesmo o filme. Perdi de perdido está, não consegui achá-lo no meio de tanta bagagem, que depois entendi desnecessária.

Mando duas das minhas fotos que podem interessar. A primeira é pra vocês, João, Jordana, Adriano e aquele caminhante que fez a gente dar boas risadas na chegada a Alto Caparaó. E a outra - que vai na mensagem seguinte para não inviabilizar a postagem - é uma lembrança de um de nossos anjos da guarda (o Santana, né? não vi o nome dele no grupo), segurando uma barra de gelo a caminho do Pico, e de você, Táti, lá no fundo.

Beijo grande a todas e a todos, com saudade, Giovana  de Sousa Rodrigues - BH